O Cosmos é tudo o que existe, existiu ou existirá.

sexta-feira, agosto 28, 2015

Ipsum Factus



Hoje já contei este episódio 3 vezes e de todas as vezes as pessoas se riram, se de mim ou comigo, não sei, mas achei que era suficientemente divertido para partilhar e distribuir mais algum riso. Ainda que uma regra do humor parece ser rirmo-nos da desgraça alheia, ainda que a desgraça só seja alheia para vós, é sobre mim e não é um grande desgraça. Mas eis o que aconteceu, como aconteceu:
Estas últimas noites tenho andado bastante ocupado com a organização do Ciclo Paper, evento que tenho que organizar à noite, pois durante o dia tenho que trabalhar. As tarefas do Ciclo paper vão desde contactar pessoas, a pintar materiais, a experimentar jogos.
Ontem à noite estava a enviar SMS's aos colaboradores, e como aos nabos tudo acontece, o telemóvel bloqueou-me a enviar um SMS. Disparatei, queixei-me, carreguei nos botões os seis segundos da praxe e como ele não reagia, lá lhe tirei a bateria e reiniciei-o à bruta. Mandei os  SMS´s que tinha que ser e abandonei o telemóvel na mesa de trabalho, pois fui convidado para experimentar uma prova espectacular que os meus colegas tinham estado a montar. Quando nos divertimos as horas correm e quando dei por ela tinha colegas da organização a dizer que tinham que se ir embora que já passava da meia noite. Tentei-me apressar e também rumei a casa.
Chegado a casa, tarde, tenho fome, há que fazer uma sandes, deixa ver o que há, queijo e misturo com molho de camarão, maravilhoso.... Só é pena que ainda tenho fome.... Deixa ver mais uma bananinha. Que bom! E para terminar antes de ir para a cama só um iogurte e já agora uma gelatina que não engorda... Olha ali uma bolachinha fora da caixa, molinha, como eu gosto... Estou satisfeito, horas de ir para a cama. Deixa ver o que está a dar na televisão. Sento-me no sofá... Que fixe está a começar um episódio do Mentalista. è rapidinho só demora 45 minutos... Acho eu...
Pronto acabou o Mentalista, parece que vai ter continuação, mas tenho mesmo que me ir deitar. Tão grogue que estou que vou aos tropeções para a cama... Tiro a roupa, atiro-a para o chão, pouso o telemóvel na mesinha de cabeçeira e toca a adormecer... Mas nunca mais adormeço... Na cama perdemos a noção do tempo e após o que pareceu uma eternidade no escuro, ouço o telemóvel a vibrar... Alguém a enviar-me um SMS a esta hora? Pego no aparelho, viro o ecrã para a minha cara e a primeira coisa que vejo são as horas: 3:25 da manhã.... Quem ca... é que me manda um SMS ás 3:25 da manhã?!  Tenho que dormir!
Convém dizer que o meu despertador para o trabalho é o próprio telemóvel, tenho-o programado para as 7 menos 10m que me dá tempo mais que suficiente para chegar ao trabalho cujo horário começa às 8:00. E mesmo quando me atraso um pouco, como só demoro 5 minutos a fazer o trajecto casa-trabalho, consigo estar lá sem grandes atrasos. Mas nesta fase já só tinha um pouco mais de 3 horas para dormir...
Finalmente adormeço, mas o sono tem também aquela propriedade do tempo passar instantaneamente e mal adormeço, ainda no escuro lá está o telemóvel a berrar, o som do despertador chama-se Einsteiniano, mas deve ser o som que o Einstein fazia de manhã quando acordava mal disposto, porque o berreiro tira-nos mesmo da cama. Eu atrapalhado salto com o corpo para cima, sem saber muito bem o que precisava, apenas que tinha que ir... Ao que a Mafalda que vai trabalhar mais cedo 1 hora e ainda ao meu lado me diz: "É muito cedo, falta uma hora..." E eu penso para mim: Rais'parta o telemóvel que voltou a ficar no fuso horário de Espanha e está a despertar 1 hora mais cedo, mas o que digo para a Mafalda é: Que bom, posso dormir mais... E deito-me...
Entretanto acordo com um beijo de despedida da Mafalda que está de saida e a partir daqui tenho que me manter atento às horas pois após ela sair eu tenho que me preparar passado pouco tempo... Por isso vou estando de olho no telemóvel e quando me apercebo que ele já marca 8:20 (o desgraçado está na hora de Espanha e por isso são 7:20) há que despachar, casa de banho, lavar-me, barbear-me, vestir-me, corro muito e verifico que são 7:45... Apertado mas já estou pronto e só levo 5 minutos a chegar ao trabalho...
Vou para a carrinha, ponho-a a trabalhar e arranco. Mal entro  na estrada noto logo que ainda é Agosto, não há ninguém nas estradas. Enfim as minhas férias já acabaram há uma semana... Vou para a autoestrada, na qual só tenho que fazer 2 quilómetros e olho para o relógio da carrinha que neste momento me mostram ser: 7.17? 7:17? Mas que car...? Afinal o telemóvel  não estava na hora de Espanha, estava mesmo desacertado e mais de uma hora... Nisto é que começo a reflectir, e vejo que ando a correr para não chegar atrasado, quando a primeira vez que ele tocou deviam ser 5 da manhã... Rais'parta a sorte... Bem pelo menos chego cedo. Estaciono na empresa, parque vazio, óbvio e bem-me à cabeça que se calhar quando abandonei o telemóvel ontem à noite alguém me decidiu pregar uma partida e decidiu adiantar-me a hora... Quem teria sido o tratante? Vamos a um cafézinho... Máquina do café, 30 cêntimos, sai o café e enquanto o saboreio calmamente, ponho-me a olhar para o visor do telemóvel e constato que ele assinala a data 1 de Janeiro de 2009... Fds... Fui eu que me atraiçoei a mim próprio quando lhe tirei a bateria e ele passou imediatamente das 22:20 de Agosto de 2015 para as 00:00 do dia 1 de Janeiro de 2009...
Sete e um quarto da manhã e eu na empresa para começar a trabalhar às oito... Pelo menos tenho tempo.

quarta-feira, novembro 05, 2014

A queda leva-nos mais longe

Saí do trabalho na minha rotina, caminhando para o carro, e passou-me pela cabeça a análise ao simples mecanismo que me fazia deslocar, o andar. Andar é basicamente levantar um pé movendo-o pelo ar para a frente e em seguida debruçamos o peso do nosso corpo, forçando uma queda, que é apoiada pelo pé levantado e que nos ampara. Reerguendo-nos sobre ele deslocamo-nos a distância de um passo para a frente...
Não pude deixar de pensar em alguns dos paralelismos com a vida. Deixamo-nos cair para chegar mais longe. Usamos a energia de algo que nos derruba para nos erguermos mais á frente. Aproveitamos aquilo que está contra nós como fonte de energia propulsora.
No entanto esta aprendizagem, ou este uso da queda, que a maior parte de nós faz automaticamente, sem sequer pensar nisso, é algo que passa por um processo doloroso de aprendizagem... Apenas os nossos pais se lembrarão dessa fase da nossa vida, em que nos erguemos pelas primeiras vezes e tentamos dar os primeiros passos enquanto inicialmente apenas tombamos para o chão. Aprendemos que cair pode ser doloroso. Temos que aprender a medir a queda, a colocar o pé à nossa frente em amparo, a usarmos a energia que nos puxa para baixo para seguirmos em frente. E quando vencemos essa dificuldade, aprendemos o equilibrio, e começamos a usar a queda em nosso favor, o nosso mundo cresce, nós crescemos e podemos chegar mais longe-
Como no caminhar, a nossa vida é feita de caminhos, de trajectos em que temos que confiar e nos empurrar para a frente, em que arriscamos sem saber se o solo na nossa frente será firme e nos amparará... Tantas vezes não é. Tantas vezes somos nós que arriscamos demais, que desconhecemos o limite da passada, e o nosso pé não chega para nos amparar. Mas aprendemos. Tombamos e ficamos com dores, no coração e na alma, parece que queremos desistir e encostar-nos, deixar de tentar, mas se o fizermos nunca aprendemos e nunca avançamos.
A vida é uma viagem e qualquer viagem começa com um passo. Um passo é uma queda e até ao fim da viagem devemos caminhar, aprender com as quedas e seguir em frente.


sexta-feira, julho 11, 2014

37 anos...

Tenho 37 anos e não tenho grandes metas a curto prazo, mas ainda tenho tanto para fazer. tenho uma vida repleta, tenho feito imenso, aprendido imenso, tenho muitas histórias para contar, muitas pessoas que conheci, que amei, que ainda amo, tento não chorar, mas é dificil sempre sorrir, tenho imenso para dar, mas também tenho uma carência enorme... Sou tudo e nada sou.
Sou honesto, entregado, amigo, carinhoso... filósofo, pragmático... humano e transcendente... transcendo-me a mim e vivo para além... e no entanto estou sempre com os pés na terra...
tanta dualidade e tão pouca pessoa...
Adoro escrever, mas amo ainda mais o toque humano... porque as palavras são apenas uma expressão da realidade, o toque é a realidade...
Tão pouco tempo e tanto que fazer...

domingo, março 23, 2014

Não pensar é um pecado... E nunca pecarás por pensamentos...

Pensar é o primeiro passo para o futuro. 

O nosso pensamento é um laboratório. Pensar, imaginar, nunca será pecado. Não pensar é que é um pecado. Na nossa mente somos livres de criar, simular, imaginar, o que ainda não existe. 

Nem tudo o que pensamos pode ser passado cá para fora. Ora porque fere os direitos dos outros, ora porque não é uma boa ideia, ora porque não é exequivel neste tempo e nestas condições. Mas pensar não fere ninguém, não representa uma má conduta, não gasta recursos com o que não pode ser feito. Pensar é apenas uma ferramenta da inteligência.

Quem nos quer negar o pensamento, assustando-nos com o pecado ou com outros castigos, apenas quer controlar o estado das coisas, por mais errado que esteja, apenas nos quer impedir de imaginar um mundo melhor em que o poder não esteja onde está, tantas vezes erradamente distribuido.

Pensar é o laboratório que está ao alcance de todo o ser humano. Permite fazer experiências em todas as ciências e até nas que não são ciências. Podemos imaginar melhores soluções para a politica, para a matemática, para a economia, para a energia, para a poesia, para a medicina, para a pintura, para tudo o que de bom o ser humano sabe fazer.

"...não pecarás por pensamentos..." que cinta à melhoria da condição humana esta expressão representa. E perpetua-se, criada por algum monstro do passado, e que a trouxe até aos nossos dias, repetida por criancinhas que a aprendem antes de saber o que as palavras podem querer dizer. 

Foi a pensar que se descobriu curas, foi a pensar que se levou o Homem à lua, foi a pensar que se inventaram navios, escreveram livros, criaram-se obras de arte, mapeou-se a Terra, mapearam-se as estrelas, criaram-se jogos, se apaixonaram pessoas e fizeram planos os amados. Pensar é a ferramenta mais poderosa de que dispomos. Não a aproveitar, vedando-nos caminhos da imaginação seria um pecado, se realmente o pecado fosse algo que existisse.

Não existe o pecado, mas existe o crime, e podem dizer que pensar pode trazer crimes. Sim, pensar também trouxe guerras, também trouxe bombas, também trouxe racismos. Pensar pode trazer de tudo. Mas não é no pensamento que está o crime. O crime em todas as coisas más está nas acções. Nada disto teria sido mau se tivesse ficado pelos pensamentos e nunca tivesse passado às acções.

Mas se o pensamento é um laboratório e nos laboratórios se faz experiências, se segue um método, então qualquer pensamento que resultasse numa teoria pior, seria descartado. Outras ferramentas teriam que ser criadas. Mas algumas já existem. A observação que tanto está aliada ao pensamento e ao método, deve ser praticada pelo que pensa, como pelos que velam. Pelos que criam, como pelos que protegem. E todos devem pensar. Porque pensar é um mecanismo de evolução, de melhoria. 

Pensar é o maior dom que o ser humano recebeu. É o que nos distingue do resto dos seres do planeta. Não se deve negar o dom a quem pode fazer coisas tão boas com ele. 


terça-feira, agosto 20, 2013

O que é o teatro para mim...

A primeira coisa que me ocorre é que o teatro é arte. Mas o teatro é muito mais; o teatro é o mundo num palco, é um sentimento verdadeiro que passa por fingido, é um desabafo sabendo que nos ouvem, é poder chorar, rir e fazer coisas humanas que preciso fazer e não consigo, é ter calor de uma família maior, são os amigos que temos no palco e fazemos fora dele, é a repetição ensaiada da vida até que o plano dê certo. Tudo isto e muito mais é o teatro.
Mas para mim o teatro é ainda divã de doutor, onde me deito, relaxo e me liberto. Onde colocando a máscara sou autêntico. No teatro eu posso ser louco, como sou, e encontro a sanidade. No teatro eu confesso verdades profundas do meu ser, expurgo-as cá para fora, livro-me do mal que me corroí e fico sem mácula.
O teatro é também um tubo de ensaio, um laboratório e universidade. Onde o inventor e cientista em mim pode experimentar. Crio a acção e observo a reacção. Posso fazer experiências sociais. Posso testar as minhas capacidades e as do mundo. Questiono o meu igual, registo a resposta e aprendo sobre mim. A experiência teatral vive da mistura do diálogo com a acção, da situação com a emoção, num cenário controlado debaixo da iluminação que cada acontecimento da vida merece. O teatro levanta a hipótese do que o mundo é, gera a teoria e prova com certeza a tese.
Tudo isto é teatro para mim. Mas o teatro não é só para mim. O teatro é para o meu igual, que ora usa o titulo de actor, ora de técnico, ora de público. O teatro é para todos estes. E todos podem ser estes.
Para o espectador o teatro permite-lhe assistir ao sonho estando acordado. O sonho que foi escrito, encenado e representado por outro. Para ele o teatro faz-lo sentir a emoção, a alegria e o riso, o choro e a revolta, dá-lhe a oportunidade de criticar o bem e o mal, de o observar de fora, ensina-lhe a moral e o escândalo, dá-lhe a escolha de qual quer ter e ser. O teatro demonstra a virtude e o defeito, apresenta o demónio e o anjo, o efeito e a consequência.
O teatro é ainda uma família. Uma família global tão grande que nem é possível conhecer, mas também uma irmandade local com quem vivo aventuras, verdadeiras no palco e verdadeiras cá fora. Com quem bebo, com quem debato, com quem ensino, com quem aprendo. São irmãos com quem partilho quartos, sofás e refeições... São as pessoas que me acompanham a sítios novos, que se se abrigam comigo da chuva e partilham o sol.
Tudo isto é teatro, mas teatro é ainda mais.

quarta-feira, maio 08, 2013

Dobra-te, humilha-te e sofre para provares que me amas!

Tenho um amigo que está envolvido numa relação doentia. O desgraçado ama uma mulher que não o merece. O problema é que ele não consegue ver isso e ainda pior é que em todo o circulo de amigos dele, eu pareço ser o único a reconhecer a insanidade da relação. Todos os outros o incentivam, declaram que ele encontrou a mulher perfeita e que vale tudo para fazer aquele amor continuar. Mesmo que isso implique humilhar-se, dobrar-se e sofrer por ela.

A mulher é uma verdadeira sádica. Quanto mais ele se humilha mais ela exige dele, inventando novas formas de o torturar das formas mais distorcidas e rebuscadas. Ele ajoelha-se, ele arrasta-se para ela, ele chora, mas ela sempre com a mesma atitude de que ele tem que lhe provar o amor sofrendo... Acreditem que já o vi de joelhos esfolados à frente dela, a penitenciar-se. Mas valeu-lhe de alguma coisa? Não teve mais nenhuma graça dela por causa disso, garanto-vos. Apenas aumentou o nível de escravidão e subserviência...
E quando começou a dieta forçada? Não compreendo muito bem como ela o conseguiu levar aquilo , mas como seria possível alguém como eu perceber uma mente tortuosa? O facto é que certo dia, ele começou a notar-se mais magro, questionamos-lo, porque não era uma magreza saudável, ao invés de estar elegante e bonito, ele estava ossudo, com a pele cinzenta e os olhos encovados, e ele confessou-nos que ela lhe pediu para fazer uma dieta à base de raízes e saladas de azedas... Horrível, intragável, nem é comida para seres humanos... O facto é que ela lhe justifica sempre que os sacrifícios que ele faz são pelo amor dela e que beneficiam a todos, mas no fundo são apenas mais uma forma de explorar novos níveis de dor e sofrimento.
Uma coisa habitual que ela lhe faz todos os anos por altura das férias, são as caminhadas. Dito isto parece saudável, mas eu mostro já onde isto se distorce. O desgraçado aproveita sempre para tirar férias entre Maio e Outubro e ainda antes do meio do mês, lá está ele nas caminhadas que mais parecem trabalhos forçados. Penso que deve ser uma forma para não o aturar em casa, pois ela leva-o a fazer caminhadas que demoram dias, ao longo de centenas de quilómetros, por estradas perigosíssimas. Ela dá-lhe um colete refletor (como se isso lhe valesse de muito nas estradas com os carros a cruzarem-se com ele a 90Km/h) e manda-o caminhar. E lá vai o desgraçado de manhã à noite a romper solas, cheio de bolhas e a mancar, para longe dela, mas achando que está a caminhar para ela...

A minha opinião e penso a de qualquer pessoa razoável, é que se ela gostasse mesmo dele lhe dava paz, carinho verdadeiro e não o maltrataria. Claro que se ele ouvir isto, começa a disparatar defendendo-a... Síndrome de Estocolmo?! Não consigo pensar noutra coisa para explicar este amor doentio...

Eu não sou dono da razão, mas sou uma pessoa não dogmática e critica que sabe observar de uma forma isenta e verificar onde está o razoável e onde se entra no disparate. Esta adoração é um disparate. Alguém que nos ame não nos pede sacrifícios só como prova de amor. Alguém que nos ame não nos quer ver sofrer e não o justifica com o argumento que o nosso sacrifício e dor pessoal é para o bem maior. Alguém que nos ame poupa-nos da dor, ajuda-nos, ensina-nos, exemplifica-nos valores de moral. Qual é a moral de tudo isto?

Apesar de todo o meu testemunho e factos que apresentei, tenho a certeza que não o consegui convencer e que no nosso grupo de amigos vou continuar a ser eu que consideram estar errado. Mas eu limitei-me a apresentar factos e tudo o que disse por mais surreal que possa parecer é verdadeiro.
Vá lá amigo, deixa a Maria de Fátima que ela não te merece.

sábado, outubro 20, 2012

Cristo dos nossos tempos.

Jesus viveu há 2000 anos, num período do mundo em que imenso havia a melhorar. Segundo os escritos que sobreviveram e nos quais não podemos ter muita confiança, tantas foram as alterações, acrescentos e traduções falaciosas sobre o que este homem viveu e fez, que não temos uma ideia correcta do que realmente aconteceu, apenas pistas. A ideia dos cristãos é que este homem foi um exemplo da bondade e da humanidade, contrariando até aquilo que nos passa através dos seus evangelhos. Se lermos o que está escrito vemos que este homem tinha momentos de emoções fortes e violência. A personalidade de Jesus apresentada por José Rodrigues dos Santos no seu livro "O Ultimo Segredo" faz para mim mais sentido do que a imagem apresentada pelos padres e por aqueles que pregam a "sua" palavra actualmente. Jesus seria um judeu radical que desejava uma religião judaica seguida à letra. E apregoava-o de forma mesmo a roçar a violência, tendo sido provavelmente o episódio da destruição das bancas dos vendedores no templo a provocar o castigo que o terá levado à morte. Mas a minha reflexão sobre este episódio vem do facto de que no tempo de Jesus os direitos humanos eram coisa desconhecida. Um homem desse tempo teria que ser muito visionário para imaginar um mundo em que filhos de camponeses pudessem ir à escola, em que não houvesse escravos, nem diferenças entre homens e mulheres, em que as crianças tivessem os seus direitos protegidos, e os velhos apoio na sua velhice. O que me leva ainda mais longe, a imaginar que um homem do nosso tempo que pudesse viajar a estes tempos passados e transmitisse estas ideias actuais entre os homens do passado, seria um pacifista, um profeta do amor, melhor do que o próprio Jesus Cristo.
Isto não se torna uma mensagem de ataque a Cristo e à religião, mas de um elogio ao homem moderno e a todos os que contribuíram para que aceitássemos esta igualdade como algo de correcto. Uma boa parte dos Homens na Terra actualmente guardam em si valores melhores do que os do próprio Jesus.
Esta cultura humana de bondade foi construída por filósofos, pensadores, homens de ciência, que observaram, reflectiram e puserem hipóteses de bem, que a pouco e pouco sendo aplicadas pelos nossos governantes provaram ser caminhos bons para o homem. Um homem do nosso tempo seria um estranho no tempo de Jesus. As pessoas desse tempo não estavam prontas para reconhecerem todo e qualquer um como igual a si em direitos. Jesus segundo os escritos apregoou algo parecido com isto, mas na realidade o seu espirito não reconhecia a todos como iguais, porque era um homem desse tempo. Não era concebivel para um homem que a mulher podesse ter um papel na sociedade idêntico ao de um homem. A escravatura era algo que foi (infelizmente ainda é em alguns países) aceite como uma realidade do mundo. O Homem de hoje vive segundo uma conduta que priveligia a igualdade. Ainda temos muito a melhorar. Mas sabemos distinguir o certo do errado e criar caminhos para isso de uma forma informada que nunca nenhum homem do passado soube.
A mensagem actual que pretende ser de Jesus não é a mensagem de Jesus. A mensagem de amor é a mensagem de milhares, milhões de pessoas que somaram os seus pensamentos e deixaram as suas ideias e acções de bem no anonimato, sendo os seus actos de bondade atribuidos a um homem que não fez tanto, nem inspirou assim tanto. Foram os pregadores e missionários que se seguiram a Jesus, foram os cientistas e estudiosos destes ultimos 2000 anos, foram os bons governantes, foram os homems do povo que se juntaram e mostraram a sua força de querer algo de melhor que nos trouxe aqui. Actualmente cada um de nós pode e será melhor que Jesus. O Homem de hoje é a soma dos ideais de todos os Homens do passado.

quarta-feira, maio 30, 2012

3º Aniversário do Eduardo

Tenho estado desatento daqui. Ainda estou a dever a este blog a foto do 6º aniversário da minha filha.
Mas graças ao meu amigo (e sobrinho também) Miguel, coloco aqui uma foto deste terceiro aniversário do Eduardo.


quarta-feira, fevereiro 15, 2012

Coisas

São coisas por que passo
Coisas que são um sucesso
Outras dão em fracasso
E nem sei se o mereço
A vida é uma sucessão
de coisas que acontecem
Umas coisas para reflexão
Outras não o merecem
Queremos juntar coisas
Queremos ganhar coisas
E esquecemos-nos de coisas
Que valem ainda mais
Valores e coisas pequenas,
Mais valiosas que tais,
As coisas felizes
Não ocupam dimensão
São apenas directrizes
para o nosso coração
Viver com o bem,
Amar, ensinar, partilhar,
São as coisas que convêm,
Ser capaz de ser e estar
È a maior prenda
que podemos entregar
E ao dar, iremos receber
Porque coisas boas precisam
de paz para acontecer.

sábado, dezembro 17, 2011

Discurso de Gettysburg - Liberdade e Povo

"Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais.

Encontramo-nos atualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.

Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes.

O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram.

Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra."

        — ABRAHAM LINCOLN

        19 de Novembro de 1863

quarta-feira, novembro 23, 2011

Genesis


No principio A Consciência vagueava entre as dimensões, viajando sem existir espaço nem tempo, por entre o vazio. Estava sozinha e limitava-se a observar. Ocasionalmente acontecia uma explosão de luz por entre as dimensões, como bolhas de luz que se inflamavam e quase sempre acabavam por desaparecer de imediato. A Consciência sabia que tinha sido de uma dessas bolhas de luz que tinha surgido, mas tinha sido um fenómeno único. De alguma forma a explosão tinha gerado um universo estável que tinha evoluído e gerado A Consciência. Mas agora o fenómeno não se repetia. Enquanto vagueva pelas dimensões, a sua concentração saltava sempre para cada novo foco de luz que surgia, mas quase sempre as constantes desse universo não eram adequadas à sua estabilidade e o mesmo que aparecia, desvanecia-se deixando de existir.
A Consciência teve toda uma existência sem fim para observar e aprender. Aos poucos aprendeu que quando a sua concentração saltava entre dimensões de alguma forma conseguia despertar pequenos focos de luz, big bangs provocados pela sua alteração. Isso deu a oportunidade À Consciência de observar mais de perto e mais vezes o fenómeno. Como uma criança à descoberta começou a dominar a criação de universos e com isso aprendeu sobre as variáveis que o influenciavam. Aprendeu que existiam universos com massa e outros só com energia. Os que tinham massa duravam mais tempo, a massa gerava mecanismos que o sustentavam por um mais longo período, e Ela viu que isso era bom.
Com o contar de experiências a Sua concentração permitia-lhe gerar universos quase sempre com massa. Mas mesmo esses acabavam por desaparecer. A Consciência estudou as suas variáveis, aprendeu sobre as pequenas características que eles tinham, a força de atracão entre as partículas, o tamanho das partículas, as forças electromagnéticas que se geravam, e aos poucos, pequenos universos começaram a surgir que geravam espirais de luz após o aparecimento da bolha inicial. Usando de um número de tentativas infinito ao seu dispôr A Consciência imaginou um universo estável e conseguiu-o criar. Da pequena bolha de luz, surgiram as primeiras espirais, e entre essas houveram embates, e novas espirais surgiram, a matéria deste universo começou a avançar para formas mais complexas e com isso surgiram pequenos grãos que rodeavam os pontos de luz de que eram formadas as espirais, e A Consciência viu que isso era bom.
A Sua concentração afundou-se nos pontos sólidos e viu que aí existiam interações entre a matéria. Existia matéria liquida que fluia e matéria sólida que se arrastava. E os pequenos átomos desta matéria começaram a aglomerar-se em moléculas complexas e aconteceu que a matéria ganhou autonomia. A matéria começou a dominar o espaço à sua volta procurando novos pedaços iguais e reproduzindo-se. A tudo isto A Consciência esteve atenta e viu que isto era bom.
Durante um período de tempo neste universo as particulas autónomas tornaram-se cada vez mais complexas. Agruparam-se e formaram pequenos motores vivos de matéria que conseguiam deslocar-se pelos liquidos. Em pouco tempo na escala da existencia já os seres vivos tinham saltado para o espaço sólido, espalhando-se por toda a superficie do seu pequeno ponto no universo. Este fenómeno aconteceu por muitos sitios do universo, mas em alguns a luz das espirais fazia desaparecer os pontos sólidos e os seres que os pisavam. Mas eles eram tantos que alguns evoluíram para um ponto que começaram a saltar para o espaço em volta. Era a matéria a usar a matéria. A matéria tinha desenvolvido consciência e A Consciência viu que isto era bom.
De alguma forma fechados neste universo que usava apenas uma fração das dimensões possiveis, os seres minisculos e conscientes no seu interior começaram a enviar mensagens para o espaço em volta. A Consciência sentiu-o e teve vontade de responder, mas já tinha interferido na sua criação e optou por não o fazer, agora deixou-se ver para onde ia este universo. A entropia do universo aumentava e A Consciência sentiu que também este se extinguiria, mas este era diferente. A matéria viu que este universo com constantes escolhidas minuciosamente por si tinha gerado inteligência. E a pequena bolha de luz que se começava a apagar, tinha os seres no seu interior à procura de soluções. Os seres lá dentro descobriram que existiam mais dimensões para além do seu universo, e todos juntos no seu interior, agora eram seres que tinham vindo de diferentes espirais que se uniam no pensamento, procuraram, e conseguiram comunicar com A Consciência. E Esta viu que também era bom responder. E comunicaram. Os pequenos seres aprenderam de quem os tinha criado e quiseram juntar-se a ela. Mas só o podiam fazer em harmonia como um só. E toda a matéria e energia restante deste universo foi usada para gerar uma Consciência única, movida pelos pequenos seres que se moviam no seu interior. E todos juntos como um só abandonaram a sua bolha de luz que se apagava e juntaram-se À Consciência que agora já não estava sozinha e ambas viram que isto era bom.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Misticismo contra a ciência

Cheguei à internet hoje e confrontei-me com os signos de imensos amigos facebookianos expostos ali. Apeteceu-me escrever um texto sobre a Astronomia vs Astrologia, para tentar iluminar alguns espíritos, e então recordando-me que em no seu livro Cosmos, Sagan tem um capitulo dedicado à desmistificação, fui procurar citações desse homem que tanto admiro, para me inspirar, citar, e alargar, mas encontrei esta tira fantástica, sobre um encontro entre a Nave de Batalha da Astrologia contra a nave da imaginação de Sagan que tantas vezes vimos na série Cosmos, e achei que a forma mais simples de passar a mensagem que queria era através desta forma simples, divertida e acessível. Aqui fica:


 

 Almirante Leão. Uma nave espacial não-identificada está se aproximando.

 Aumente na tela, Comandante Capricórnio.

 Oh, não!!! É Carl Sagan e a sua nave da Imaginação!!!



 Astrologia… Seu futuro parece… pouco aprazível.

 Rápido, major Peixes! Dispare o Raio de Remédio Homeopático!!!

 Acertamos em cheio, senhor!

 Almirante! O Raio de Remédio Homeopático não teve absolutamente NENHUM efeito mensurável!

Hmmm….

[Método Científico. Clique.]

[Ciência]

Míssil em nossa direcção, senhor!!!

Sargento Escorpião! Activar o Escudo movido pela Máquina de Movimento Perpétuo!!!

Senhor! Não há energia alguma vindo da Máquina de Movimento Perpétuo!!!

Uh… Certo. Rápido! Todos, coloquem suas pulseiras de equilíbrio magnético holográfico antes que o mís…

[Silêncio no vácuo]

Hmmm….

Crocante.

Trabalho de :[ninjerktsu]

sábado, julho 30, 2011

Shakespeare Monkey Theorem

'The infinite monkey theorem states that a monkey hitting keys at random on a typewriter keyboard for an infinite 'amount of time will almost surely type a given text, such as the complete works of William Shakespeare.
'Let´s test it with a console apllication on VB.
'As computers have problems understanding «infinite amount of time», the cycle will repeat it for a googolplex 'number of cycles, being googolplex a constant defined somewhere else.
'I did a research and someone states that the bible has 5M chars, so i think a text variable for that will be able to
'memorize a good work for shakespeare, though thar a 5M chars variable will be a impossible variable.

        Dim SymbolsonShakespeare, Shakespeareneverwritten_impossiblevariable As String
        Dim SymbolsonShakespeare_len, randomsymbol_pos As Integer
        Dim work, workletter as googolinteger
        Dim randomsymbol As Char

        SymbolsonShakespeare = "ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ abcdefghijklmnopqrstuvwxyz 1234567890 ,.!?:;-()«»"
        SymbolsonShakespeare_len = Len(SymbolsonShakespeare)
        For work = 0 To googolplex
            Shakespeareneverwritten_impossiblevariable = ""
            For workletter = 0 To 5000000
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            System.Console.Write("Random Work of Shakespeare Monkey: " + vbCrLf)
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quinta-feira, julho 28, 2011

Noruega

Os países nórdicos europeus são um exemplo para o mundo em civismo, labor, saúde, educação, e outras tantas virtudes que melhoram o nosso mundo. Mas o que aconteceu em Oslo é um sinal também para o mundo para estarmos atentos, para percebermos que a história não acabou, que a humanidade ainda tem a capacidade de fazer coisas magnificas, mas também coisas terríveis.
Os muçulmanos da África e médio Oriente vivem em países atrasados (ainda que alguns em países muito ricos) e para o ocidental que tem acesso à informação é fácil perceber (ainda que difícil de compreender) o terrorismo que ali se forma, fruto da ignorância, da pobreza, da liderança corrupta. Mas não esperávamos que nesta metade do mundo acontecessem barbaridades como as que vimos na Noruega. Mas não aconteceu já isto, de forma organizada, por pessoas com as mesmas ideias, na Europa e no tempo dos nossos avós, para sempre enquanto a história registar e a memória não esquecer com o nome de Holocausto?! A maldade não morre infelizmente.
Serve isto de álibi aos muçulmanos, que infelizmente foram os primeiros suspeitos deste terror. Os muçulmanos extremistas, porque nós sabemos que não é a religião generalizada que causa o terror. Tal como aqui na Europa, com estes grupos extremistas que como castigo moral para a estupidez deles, que não lhes permite perceber que têm exactamente as mesmas ideias dos extremistas da outra metade do mundo que nos querem eliminar a nós. É meio mundo a achar que a outra metade está errada, e por isso merece ser castigada da forma mais terrível. Onde nos poderão levar tais ideias? É um caminho de auto-destruição.
Infelizmente isto aconteceu. Mas o mal serve para tirar lições. O facto de ter acontecido num país exemplar obriga-nos a prestar mais atenção, do que a que prestamos aos atentados diários no Iraque, em que muitas vezes morrem mais pessoas do que ali. Aprendemos que o mundo ocidental não é o exemplo absoluto de civilização, também temos podres, também oprimimos, também criamos mal estar, e aberrações. Aprendemos a estar atentos.
A Utópia nunca existirá mas é o caminho para ela que nos pode livrar do mal. Parece um pensamento religioso, mas é um pensamento filosófico. Enquanto houver mal estar na sociedade e diferenças entre as pessoas estas coisas são uma possibilidade. A solução é melhorarmos o mundo democratizando as ideias e a sociedade, educando as nossas crianças para serem tolerantes, ensinar-lhes que não existem verdades absolutas, não devem existir dogmas, nem ninguém é dono da verdade. Aliás a ciência ensina-nos isso, cada verdade actual pode ser sempre melhorada e completada no futuro. Enquanto existirem pessoas radicais que se acham donos da verdade o nosso mundo corre o risco de sofrer acontecimentos destes. Mais uma vez firmo a minha convicção em que o equilíbrio de forças é a solução. As diferenças devem existir para se anularem mutuamente, mas de uma forma pacifica. Temos que ensinar as futuras gerações a maravilharem-se com a diferença e não a odiarem-na. Mas de alguma forma temos que mudar o mundo, de forma lenta, não nos iludindo com a urgência, nem forçando ninguém a alterar o seu modo de vida.
Temos que continuar com o nosso caminho em frente. Temos que meditar, perceber o que está mal, e trabalhar muito na educação, na melhoria do mundo e da sociedade. Penso que por muitos factores estamos na beira de um precipício, mas os próximos anos serão essenciais para criarmos uma ponte e deixarmos o abismo para trás, seguro. Somos nós os engenheiros da sociedade, aqueles que devem projectar o futuro. Mas também seremos os operários e aqueles que tirarão proveito da travessia segura. Empenhamos-nos em construir a ponte ou deixamos-nos empurrar para o precipício? A escolha é de todos.

terça-feira, junho 14, 2011

Desabafo sem palavras

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segunda-feira, junho 06, 2011

Como é que os meninos de cadeira de rodas andam de baloiço?

Hoje fui buscar a minha filha ao jardim de infancia. Ela é finalista, com 5 anos. Está naquela fase da ingenuidade e inocência em que os porquês do mundo se lhe põem. E ela perguntou-me como é que os meninos em cadeira de rodas andavam de baloiço. Como criança normal que ela é, para quem o parque infantil é das coisas mais importantes, não faz sentido que as outras crianças sejam diferentes. E perguntou-me isto...
Que responde um pai? Eu próprio, um pouco egoístamente, nunca tinha pensado nisto. Todos os meninos deviam ter direito a desfrutar de uma infancia plena, de se divertirem, de aprenderem, de terem as mesmas boas experiencias. Mas o mundo não é assim. Há coisas piores, há crianças que passam por cenários de guerra, e que até pegam em armas, quando deviam andar de bicicleta e brincar com bonecas. Mas mesmo no nosso meio, há crianças que não podem andar de baloiço.
Podemos até encontrar soluções para estas crianças não encontrarem estas barreiras. Já nem se fala das imensas barreiras arquitectónicas, mas até experiencias banais e ao mesmo tempo essenciais, como andar de baloiço ou escorrega, podem ter obstáculos para quem tem limitações.
A minha filha queria encontrar soluções, queria pensar que os pais dessas crianças os ajudavam, os seguravam enquanto eles se divertiam. Mas será tal possivel? Penso que não.
Apesar de todas as nossas dificuldades, ainda há pessoas e crianças que passam por maiores. Este mundo não é justo. Nunca será. Mas isso deve-nos servir de aprendizagem, para sabermos valorizar a sorte que temos.
Há meninos que simplesmente não poderão andar de baloiço...

sábado, junho 04, 2011

Os ateus deviam ter um confessionário

Errar é próprio do ser humano. Reconhecer os erros e arrepender-se deles nem todos os seres humanos conseguem. Eu gosto de pensar que eu consigo reconhecer os meus erros e arrepender-me deles, sempre que possível corrigindo-me. Às vezes preciso que me apontem os erros, outras vezes reconheço-os sozinho. Mas apesar de ser um sujeito muito orgulhoso, não tenho orgulho em persistir com os meus erros. Mas há erros que nos roem. Os católicos têm o descanso de espirito da confissão e absolvição. Eu tenho que viver com os meus erros, sabendo que a única absolvição é tentar não errar de novo. Mas sou humano...
Não considero o erro uma coisa má. Aliás considero o erro absolutamente necessário para a evolução. Se não fosse o erro não existiria vida complexa e inteligente. A evolução segundo Darwin é uma soma de erros na reprodução, em que a maior parte são fatais, mas uns poucos erros permitem descobrir soluções que nos levam à fase seguinte da evolução. Estudar e aprender é trabalhar errando até descobrirmos a solução certa. Com isso aprendemos todos os caminhos, o certo, muitos errados, e alguns que nos abrem novas portas para novas aprendizagens.
Mas errar socialmente, e especialmente errar no meu comportamento é algo que me martiriza o meu espirito. Errar com a minha familia, errar com os meus filhos, na sua educação, na minha posição, na minha disponibilidade para com eles é algo que acho inaceitável. E no entanto é onde persisto mais no erro e onde me doí mais.
Se houvesse um tribunal do erro eu poderia alegar atenuantes, stress, pressão, falhanços e frustrações, que me levaram a ser uma pessoa menos boa. Reduziria-me a pena, mas não me absolveria dela. Os ateus deviam ter direito a um confessionário. Mas não têm. Só podem falar com a família, com os amigos, falar com quem erraram e desculpar-se. Mas não há pais nossos e avés marias para pagarmos a pena e ficarmos de bem connosco. O católico acredita-se na vida eterna, o ateu acredita-se na vida efémera. O católico tem direito a uma pena efémera, o ateu a uma pena eterna...

sexta-feira, junho 03, 2011

De casa a casa

Há dias da nossa vida em que reflectimos sobre a morte. Ontem dei um passeio pelo cemitério e pensei sobre isso.
Num passeio entre as sepulturas, encontrei imensas pessoas conhecidas, e pensei em como no final todos nos encontramos no mesmo sitio. Amigos, familia, conhecidos, muitos a nascerem no mesmo sitio, na mesma casa, fazem um trajecto diferente, longo para os que têm mais sorte e no final voltam à mesma casa. De casa a casa.
Irmãos que vieram de uma família comum, muitos que terão nascido na mesma casa, cresceram juntos, fizeram-se Homens, aprenderam, trabalharam, conheceram alguém com quem construir uma vida, deram novas vidas, uns em casas próximas, outros afastaram-se e foram para longe, para outras terras, ensinaram, para no final se reunirem novamente na casa daqueles com quem cresceram. É poético.
(Quase) Ninguém sabe qual será o seu último dia, pode ser hoje, poderá ser daqui a muitos anos, a vida é o nosso dom mais precioso. É com a vida que a matéria pode mudar o curso da história, que pode desafiar a entropia e encontrar a vida eterna. No final só restam as nossas partículas, mas enquanto elas estiveram organizadas em nós, de alguma forma puderam ter (pelo menos a sensação de) livre arbítrio. Nesta fase da minha vida acredito-me mais no determinismo, quero-me acreditar, faz mais sentido para o meu cérebro racional, que tudo desde o principio dos tempos, já está determinado, que cada dois átomos que se encontram partilham a sua energia de forma matemática, e que o resultado não é aleatório, mas predefinido, ainda que incalculável e obscuro. Acredito-me que o final dos tempos já não pode ser alterado, mas que este universo já foi tão longe na improbabilidade matemática, para o desfecho não ser feliz.
E os seres humanos assim como toda a vida que nos rodeia, são uma das peças mais importantes para um desfecho feliz. Cada pedaço de vida e inteligencia é um contributo para a sobrevivencia do universo. E sempre que fazemos algo bem feito sentimo-lo, somos recompensados com descargas de prazer e bem estar, fruto de interacções quimicas, da matéria a recompensar a matéria.
Acredito que temos um destino pré-traçado, que não podemos fugir dele, mas ele é desconhecido e impossivel de conhecer, apenas no final da nossa vida, no último dia que vivemos a nossa existencia se completa e faz todo o sentido. Até esse último dia, temos um contributo a dar, uma influencia sobre o meio. A partir desse último dia, voltamos à nossa casa, e reunimo-nos com o universo de que fazemos parte, espalhando-nos e provavelmente voltando em outras formas, dando outros contributos diferentes, quiçá um dia novamente inteligentes...

quarta-feira, maio 18, 2011

Isaac Asimov – A Última Pergunta

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a álcool, e aconteceu da seguinte forma…

Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multivac. Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender.

Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era Multivac.

Por décadas, Multivac ajudou a projetar as naves e enredar as trajetórias que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas, os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração. Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos.

No entanto, lentamente Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação, e em 14 de maio de 2061, o que não passava de teoria tornou-se real.

A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio, girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar.

Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado de Multivac. Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos, Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso. A princípio, eles não tinham a intenção de incomodá-lo.

Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar na companhia do outro e da bebida.

“É incrível quando você pára pra pensar…,” disse Adell. Seu rosto largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente, enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. “Toda a energia que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo. Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e eternamente.”

Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e os utensílios. “Eternamente não,” ele disse.

“Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert.”

“Isso não é eternamente.”

“Está bem. biliões e biliões de anos. Dez biliões, talvez. Está satisfeito?”

Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo como que para se assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da sua bebida. “Dez biliões de anos não é a eternidade”

“Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?”

“O carvão e o urânio também iriam.”

“Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac.”

“Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso”

“Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós,” disse Adell nervosamente, “Ele fez tudo certo”.

“E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez biliões de anos, mas e depois?” Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o companheiro. “E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol”

Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios apenas ocasionalmente e os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se abriram, disse, “Você está pensando que iremos conseguir outro sol quando o nosso estiver acabado, não está?”

“Não, não estou pensando.”

“É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra.”

“Entendi,” disse Adell. “Não precisa gritar. Quando o sol se for, as outras estrelas também terão se acabado.”

“Pode estar certo que sim” murmurou Lupov. “Tudo teve início na explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez biliões de anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos biliões. Mas nos dê um trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu máximo, e é tudo.”

“Eu sei tudo sobre a entropia,” disse Adell, mantendo a sua dignidade.

“Duvido que saiba.”

“Eu sei tanto quanto você.”

“Então você sabe que um dia tudo terá um fim.”

“Está certo. E quem disse que não terá?”

“Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que precisávamos, para sempre. Você disse ´para sempre`.”

Era a vez de Adell contrariar. “Talvez nós possamos reconstruir as coisas de volta um dia,” ele disse.

“Nunca.”

“Por que não? Algum dia.”

“Nunca”

“Pergunte a Multivac.”

“Você pergunta a Multivac. Eu te desafio. Aposto cinco dólares que isso não pode ser feito.”

Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma questão que, em palavras, corresponderia a esta: a humanidade poderá um dia sem nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol a sua juventude mesmo depois de sua morte?

Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira: A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?

Multivac mergulhou em silêncio. As luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam.

E então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção de Multivac. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam do incidente.

* * *

TheMoonsOfJupiterJerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor.

“Este é X-23,” disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.

As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando, “Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!”

“Quietas, crianças.” Disse Jerrodine asperamente. “Você tem certeza Jerrodd?”

“E por que não teria?” Perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, em verdade, era tão longa quanto a nave.

Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para saltos no hiperespaço.

Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras “ac” na extremidade de Microvac significavam “automatic computer” em inglês arcaico, mas ele mal era capaz de se lembrar disso.

Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando observava o visor. “Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra.”

“Por que, meu deus?” inquiriu Jerrodd. “Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super povoado.” E, depois de uma pausa reflexiva, “No ritmo em que a raça tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar.”

“Eu sei, eu sei”, disse Jerrodine com descaso.

Jerrodete I disse prontamente, “Nosso Microvac é o melhor de todos.”

“Eu também acho,” disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.

Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante um milhar de anos, eles só fizeram aumentar em tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.

Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às estrelas.
“Tantas estrelas, tantos planetas,” pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos. “Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora.”

“Não para sempre,” disse Jerrodd, com um sorriso. “A migração vai terminar um dia, mas não antes de biliões de anos. Muitos biliões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar.”

“O que é entropia, papai?” Jerrodette II perguntou, interessada.

“Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?”

“Você não pode colocar pilhas novas, como em meu robô?”

“As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas.”

Jerrodette I se prontificou a responder. “Não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem.”

“Olha o que você fez,” sussurrou Jerrodine, exasperada.

“Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?” Jerrodd sussurrou de volta.

“Pergunte ao Microvac,” propôs Jerrodette I. “Pergunte a ele como acender as estrelas de novo.”

“Vá em frente,” disse Jerrodine. “Ele vai aquietá-las.” (Jerrodette II já estava começando a chorar.)

Jerrodd se mostrou incomodado. “Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar a Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar.”

Ele fez a pergunta ao computador, adicionando, “Imprima a resposta”.

Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente, “Viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar.”

Jerrodine disse, “E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar.”

Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.

* * *

PeppleInTheSkyVJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em pequena escala da Galáxia e disse, “Me pergunto se não é ridículo nos preocuparmos tanto com esta questão.”

MQ-17J de Nicron balançou a cabeça. “Creio que não. No presente ritmo de expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco anos.”

Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, ambos eram altos e tinham corpos perfeitos.

“Ainda assim,” disse VJ-23X, “hesitei em enviar um relatório pessimista ao Conselho Galáctico.”

“Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os. Nós precisamos chacoalhá-los um pouco.”

VJ-23X suspirou. “O espaço é infinito. Cem biliões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais.”

“Cem biliões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo. Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos…”

VJ-23X interrompeu. “Devemos agradecer à imortalidade por isso.”

“Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a morte, sobrepujou todas as outras conquistas.”

“No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida.”

“Nem um pouco.” Respondeu MQ-17J, emendando. “Ainda não. Eu não estou velho o bastante. Você tem quantos anos?”
“Duzentos e vinte e três, e você?”

“Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão; a população dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos um milhar de galáxias transbordando de gente. Em mil anos, um milhão de galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?

VJ-23X disse, “Além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as populações de uma galáxia para outra.”

“Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de energia solar por ano.”

“Da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas duas.”

“Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim. Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão.”

“Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás interestelar.”

“Ou a partir do calor dissipado?” perguntou MQ-17J, sarcástico.

“Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao AC Galáctico.”

VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu Comunicador-AC do bolso e colocou na mesa diante dele.
“Parece-me uma boa idéia,” ele disse. “É algo que a raça humana terá de enfrentar um dia.”

Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno Comunicador-AC. Tinha apenas duas polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio hiperespaço era parte integral do AC Galáctico.

MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares. Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de mil pés de comprimento.

De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC, “Poderá um dia a entropia ser revertida?”

VJ-23X disse, surpreso, “Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa pergunta.”

“Por que não?”

“Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas.”

“Existem árvores no seu mundo?” Perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela do pequeno Comunicador-AC em cima da mesa. Dizia: DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.

VJ-23X disse, “Viu!”

Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao conselho galáctico.

* * *

A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos incontáveis turbiliões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas, cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse, virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o espaço.

Mentes, não corpos! Há eons os corpos imortais ficaram para trás, em suspensão nos planetas. De quando em quando erguiam-se para realizar alguma atividade material, mas estes momentos tornavam-se cada vez mais raros. Além disso, poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incrivelmente maciça de humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos indivíduos.

Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos emaranhados de outra mente.

“Sou Zee Prime, e você?”

“Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?”

“Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?”

“Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não é?”

“Verdade, já que todas as Galáxias são iguais.”

“Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna diferente.”

Zee Prime disse, “Em qual delas?”

“Não posso responder. O AC Universal deve saber.”

“Vamos perguntar? Estou curioso.”

A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo plano de fundo. Tantos biliões de Galáxias, todas abrigando seus seres imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a espécie humana.

Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: “AC Universal! Em qual Galáxia nasceu o homem?”

O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço.

Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante difícil de enxergar, com dois pés de comprimento.

“Como pode o AC Universal ser apenas isso?” Zee Prime perguntou.

“A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar as suas proporções.”

Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era inserida.

O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas.

Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro. “ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM.”

Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras. Zee Prime ficou desapontado.

“Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito, “E alguma dessas é a estrela original do homem?”

O AC Universal disse, “A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO. AGORA É UMA ANÃ BRANCA.”

“Os homens que lá viviam morreram?” perguntou Zee Prime, sem pensar.

“UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS HÁ TEMPO.”

“Sim, é claro,” disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.

Dee Sub Wun disse, “O que houve?”

“As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já está morta.”

“Todas devem morrer, não?”

“Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente morrer, e você e eu partiremos junto com eles.”

“Vai levar biliões de anos.”

“Não quero que isso aconteça nem em biliões de anos. AC Universal! Como a morte das estrelas pode ser evitada?”

Dee Sub Wun disse perplexo, “Você perguntou se há como reverter a direção da entropia!”

E o AC Universal respondeu: “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava.

Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas ainda podiam ser construídas.

* * *

O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.
“O Universo está morrendo.”

O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.

Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia.

O Homem disse, “Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos.”

“Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A Entropia precisa aumentar ao seu máximo.”

“Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico.”

O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.

“AC Cósmico,” disse o Homem, “como é possível reverter a entropia?”

O AC Cósmico disse, “AINDA NÃO HÀ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

O Homem disse, “Colete dados adicionais.”

O AC Cósmico disse, “EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM biliões DE ANOS. MEUS PREDESCESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES. MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES.”

“Haverá um dia,” disse o Homem, “em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?”

O AC Cósmico disse, “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS.”

“Você vai continuar trabalhando nisso?”

“VOU.”

O Homem disse, “Nós iremos aguardar.”

* * *ThePowerOfBlackness

As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade.

Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.

A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.

O Homem disse, “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?”

O AC disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

A última mente humana uniu-se às outras e apenas AC passou a existir – e, ainda assim, no hiperespaço.

* * *

A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem.

Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia descansar sua consciência.

A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender.

No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis.

Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento.

Finalmente, AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta – por definição – também tomaria conta disso.

Por outro incontável período, AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, AC organizou o programa.

A consciência de AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.

E AC disse:

“FAÇA-SE A LUZ!”

E fez-se a luz