O Cosmos é tudo o que existe, existiu ou existirá.

quarta-feira, janeiro 27, 2021

Conto de ficção em realidade distópica sem possibilidade de se tornar verdadeira (?!)

 

Vinte quarenta, sinto-me velho. Lembro-me de quando o declínio começou, também nos referíamos ao ano pelas duas dezenas, nessa altura era uma repetição do número, não foi assim à tanto tempo, mas desde aí tanto mudou. A minha geração foi a primeira a ter sido criada na liberdade. É um facto que a nossa infância foi pobre, fruto de um Portugal sem indústria, analfabeto, filho de um regime parecido com aquele que agora nos governa. Mas apesar dessa pobreza, a liberdade e a educação que recebemos deu-nos as ferramentas para criar a riqueza, habituamo-nos ao conforto que a verdadeira liberdade e concorrência criam. Depois, quando veio a pandemia e perdemos esse conforto, levantou-se a voz a apontar culpados. Muitos acharam que os culpados deviam vir dali, nunca poderiam ser os próprios e assim a voz foi ganhando poder.

A voz apresentou-se como líder do Arriva, quem escutava para além do que ela dizia percebeu que a agenda estava nas entrelinhas e não nas palavras proferidas. Ao princípio disparatou em todos os sentidos, atacou estes, aqueles, o poder maior, as minorias, as empresas, as cooperativas e foi percebendo quais as acusações que lhe davam melhor retorno. Percebeu o que as pessoas queriam ouvir e o discurso foi-se orientando nesse sentido, não eram valores verdadeiros, não eram soluções reais, era um indrominar de espíritos que lhe foi fazendo subir degraus na escada do poder.

Os meus filhos estavam a chegar à maioridade quando pela primeira vez aquela voz maledicente chegou ao poder. Não chegou lá sozinho, fez alianças com partidos de verdadeiras pessoas de bem. Não eram as “pessoas de bem” que a voz tanto referia, aliás nunca se soube quem eram essas “pessoas de bem” de quem falava. Todos se identificavam quando o Arriva se insurgia a favor das “pessoas de bem”, achavam que os defendia, nunca perceberam que “pessoas de bem” não são todos e eram ninguém. Como uma gota de veneno que cai numa fonte pura, a aliança rapidamente ficou contaminada, de repente tudo era tóxico e na ânsia de limparem, com as coisas a piorarem, cada vez se esforçavam mais por restringir, por limpar, por sanitizar, os culpados deviam ser “os outros” e começaram a cortar direitos, a restringir liberdades. O jornalismo que serve como termóstato da democracia não se calou, fez o seu papel, e de repente ficamos sem liberdade de expressão, a favor do estado de direito e das “pessoas de bem”, porque os “sabotadores de esquerda” infiltrados no jornalismo não deixavam o “estado de bem” trabalhar.

Queria ter deixado aos meus filhos um país ainda melhor do que aquele em que cresci. Mas não fomos capazes. Antes, o crime menor foi diminuindo, a justiça afirmou a separação de poderes de que necessitava para fiscalizar o poder e isso fez descobrir grandes criminosos escondidos na máquina do estado. Mas ao invés de nos satisfazermos por estarmos realmente a fiscalizar e a identificar os grandes criminosos, a voz gritou: "Os que estão no poder são amigos desses criminosos. Eles encobrem-nos!". O povo revoltou-se e o Arriva infiltrou-se na justiça. Depois apontaram para os pequenos criminosos, aqueles que menos se podiam defender e disseram que era eles os culpados de tudo, disseram que os subsídio-dependentes que não trabalhavam é que estavam a estragar tudo e as pessoas novamente viraram-se para aqueles “culpados”, desviando a atenção de cima, deixando o poder negro enraizar-se.

À medida que eles retiravam apoios das minorias a necessidade e o desespero fizeram aumentar o crime. Foram classes que nunca tiveram privilégios, viviam à margem, em pobreza, mas antes de tudo isto acontecer, graças aos apoios sociais, com garantias de saúde, educação e rendimentos mínimos para subsistirem, tentavam integrar-se, apesar da falta de formação viviam de biscates, mantinham-se acima da linha de água e do crime, alguns até conseguiam quebrar o ciclo e sair da miséria, haviam oportunidades. Mas o Arriva disse que eles eram chupistas, viviam dos nossos impostos, não contribuíam nada para a sociedade e nós não os devíamos manter com o nosso trabalho. O Arriva nunca contou que a maioria dos beneficiários destes rendimentos eram mulheres e crianças.  Mas o povo achou que ia receber mais, ou pelo menos pagar menos impostos, se os chamados chupistas deixassem de ter os subsídios. E as mulheres e crianças, assim como todos os desempregados das minorias, perderam esses apoios. Isso não fez ficar mais dinheiro no bolso dos trabalhadores, lá em cima encaminharam o dinheiro para negócios de armas, diziam que iam aumentar a segurança. Só que não. Mais armas a circular fez com que houvesse mais crime violento nas ruas. As necessidades criaram mais criminosos. E este ciclo vicioso fez a voz do Arriva gritar mais, culpar mais, pintaram alvos em todo o lado e cada vez mais tínhamos medo de sair à rua.

A insegurança, o medo, as dificuldades fizeram sair à ruas os protestos, geraram-se motins, levantaram-se estandartes pelo bem, mas pelo meio queimaram-se automóveis, partiram-se janelas, saquearam-se lojas. O exército foi chamado, a lei marcial imposta e quando tudo pausou as leis endureceram. O governo de extrema direita endureceu as penas, reforçou o braço da força e estreitou a ligação com esse braço. De repente o governo mandava pela força e não pela democracia. Encontravam-se muitos mais culpados e com penas mais longas. O mote era, melhor culpar dez inocentes que deixar escapar um culpado. Engraçado como ninguém viu antes que o suporte financeiro do Arriva vinha de quem vendia armas.

Depois deste período já é história o que se sucedeu até chegarmos aqui, voltou a prisão perpétua, a pena de morte, criminalizaram o consumo das drogas, proibiram o aborto, controlaram fronteiras, limitaram o ensino e o acesso a ele, instituíram a propaganda nas escolas e nos meios de comunicação… curioso como com penas mais fortes não reduzimos o crime. Com a criminalização das drogas não se reduziu o tráfico.  Com a proibição do aborto a mulher e as crianças não deixaram de sofrer. Com o controlo das fronteiras não resolvemos nenhum problema de Portugal, nem do mundo. Com o ensino e os média controlados e censurados não melhoramos os valores das pessoas.

Tudo isto já aconteceu, tudo isto é passado, agora é tarde demais para mudar o que a história já fez acontecer. Se ao menos tivéssemos percebido tudo isto à 20 anos atrás, antes do Arriva chegar ao poder…

quarta-feira, março 21, 2018

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidencia

FAÇAM PANTOMINICES! – Berrou o rei que tinha herdado o trono há poucos meses e apesar de toda a sua vida enquanto príncipe já ter sido mandão, queria agora como rei mostrar que sabia mandar.
E os anões saltimbancos, habituados a agradar e a não serem abusados, fizeram o que o rei lhes ordenou, cantaram e saltaram, entretiveram e animaram até acharem que tinham agradado e feito um bom trabalho . Após o seu número os anões voltaram para o seu palhácio satisfeitos. O palhácio era o aposento dos anões saltimbancos onde eles viviam e ensaiavam.
Mas o rei, que temia não ser obedecido por todos, foi passear pelos corredores do palhácio a ver se escutava ou via algo contra ele. Ninguém queria mal ao rei, pois os anões já tinham conhecido antes outros dois réis e sempre tinham vivido em paz. Os anões faziam pantominices para alegrar os reis e estes ajudavam os anões dando-lhes melhores condições no seu palhácio. Havia confiança e entreajuda nesse tempo. Claro que os anões não tinham feito nada de mal, mas como em qualquer casa haviam caixotes do lixo cheios, ou lamparinas acesas em salas vazias e o rei aproveitou essas falhas para exercer o seu poder sobre os anões repreendendo-os e fechando-lhes o palhácio à chave deixando-os de fora.
Mas não lhes explicou as regras e os anões ficaram sem saber em que falharam e que regras deviam seguir para não falhar novamente, por isso os anões para se defenderem enviaram uma mensagem ao rei pelo anão Emílio que era pequeno e rápido. Mas o rei não respondeu durante muito tempo o que deixou todos intrigados e assim começaram  a levantar-se perguntas pelo reino. O rei apercebeu-se que estava a haver falatório e com receio de que fosse mal sobre ele, fez rapidamente um decreto e publicou partes dele em lugares públicos por todo o reino e mais além. E chamou os anões saltimbancos ao seu castelo para falar com eles.
Os 3 representantes dos anões, o Mestre, o Dunga e o Espirro foram reunir-se com o rei, mas este com medo de perder a vantagem, ainda que os anões fossem pequeninos e ele tivesse o poder todo, disse:
-Só me reunirei com um de vocês!
E o Mestre foi para a sala do trono enquanto o Dunga e o Espirro ficaram à espera jogando ao pau e pedra em linha. Quando a reunião terminou o Mestre vinha desanimado e sem soluções e por causa disso muitos anões tiveram que voltar a viver em casa dos pais e sendo essas casas longe esses anões nunca mais voltaram ao palhácio.
Os anões reuniram-se então em assembleia e depois de todos conhecerem as posições do rei e ao fecho do palhácio decidiram que tinham que continuar a fazer as coisas que mais gostavam e se não o podiam fazer com o rei e para o rei, fariam-no para o povo e com o povo. E assim os anões foram para fora das muralhas e continuaram a  fazer as coisas que gostavam para pessoas que gostavam deles. E quem perdeu foi o rei!

Moral da estória:  Quando não conseguimos encontrar semelhanças com a realidade é porque o absurdo só pode ser ficção, imaginem se não fosse!

sábado, novembro 26, 2016

A propósito do falecimento de Fidel Castro

Ditador sanguinário para uns, herói para outros, Fidel foi um ícone incontestado. Nenhuma campanha de agência com pensadores pagos a peso de ouro, podia conceber a imagem, o carisma que Fidel nos transmitia.
Podia não ser um homem bom, no sentido em que não tinha sangue nas mãos, mas certamente que era um homem com uma crença profunda, que acreditava num caminho, com uma visão e força para a implementar.
"Com grande poder vem grande responsabilidade"... As estórias de heróis ensinam-nos isto, Fidel viveu essa história. Ser bom ou ser mau, depende dos resultados e do ângulo de que observamos esses resultados. Não há Homens apenas bons, apenas Homens. Há pessoas com virtudes e defeitos que quando escalados para uma posição de grande poder e repercussão, causam muito bem e muito mal. Fidel esteve lá, "Saw that, done that."
O século XX foi o século de Fidel. Quando a história futura se lembrar desse século e o tiver que resumir a umas poucas imagens, a foto de Fidel com o seu charuto estará lá.
Foi o lider de uma ilha que tem o nome de Cuba, que contam os boatos terá sido levado pelo seu descobridor da aldeia de onde terá nascido no Alentejo. Fidel gostava dos Portugueses. Ainda que com toda a renegação que lhe demos... Chamamos-lhe tirano, sanguinário, comunista (esta última não é propriamente insultuosa, apenas para mentes pequenas e minadas) e mesmo assim ele gostava de nós. Revia talvez o espírito cubano nesta ponta da Europa. O ser afável, de coração mole e grande, pobres mas disponíveis.
Fidel deixou-nos em 2016. Talvez seja finalmente o último suspiro do séc. XX, que conseguiu entrar 16 anos para dentro do séc XXI. Agora que nos libertamos disto e Fidel passou à História olhemos em frente, temos um século novo para criar ícones e heróis. Mas carismáticos, de quico, charuto e barba como este nunca mais...

sábado, março 26, 2016

O dia só pode melhorar...

Hoje o dia só pode melhorar... Começou com tentar tirar da cama e pôr pronta a filha pré-adolescente para ir para o seu ensaio da banda... Tarefa já dificil, mas com a minha "habitual" estâmina consigo tê-la pronta quando ainda faltam 2 minutos para a hora. Agora é só entrar no carro e nesses 2 minutos tenho-a na banda... Chaves do carro? Chaves do carro?! Desapareceram.... Será que a minha esposa levou todos os chaveiros para o trabalho? Talvez, mas agora só volta às 14:30... Não há problema, vamos a pé... São só 10 minutos a pé... Está a chover? E então? Levar o saxofone de 10Kg na mão... Só atrapalha um bocadinho.... O problema é que levar guarda chuva numa mão e instrumento na outra não dá... Não faz mal, a chuva é miudinha... E já vamos a metade do caminho... Ainda só estou a bufar um bocado e o orvalho nos óculos é fininho.... Pronto já me doi um bocadinho os braços, carregar o instrumento, empurrar constantemente a miúda para ela se despachar, mas chegamos finalmente.... Agora entramos.... Espera lá, está tudo fechado... E já passam 20 minutos da hora... Se calhar hoje não há ensaio... Pronto vamos fazer tudo de novo para trás, a pé, com o instrumento nas mãos, debaixo da chuva, a empurrar a miúda para ela se despachar... O dia só pode melhorar...

quinta-feira, janeiro 14, 2016

ping fernando.human:1618



Hardware layer: 

HEART, BRAIN

Datalink Layer: 

ARTERIES, SPINAL NERVES

Network Layer: 

PULSE, SYNAPSES

Transport Layer: 

BLOOD, QUEMICHAL TRANSMISSORS, ELECTRICAL SIGNS

Session Layer: 

ACTIONS, THOUGTS

Presentation Layer: 

LANGUAGE, WRITING

Application Layer: 

LIFE



quarta-feira, setembro 09, 2015

Raio de Merda


Entro numa fase da minha vida em que a emoção desapareceu, de repente o meu mundo ficou cinzento.
Pode ser apenas uma fase passageira, uma transição por uma pequena depressão, mas também pode ser o inicio do resto da minha vida.
Não quero dizer que tenha perdido o interesse em viver, ou deixado de amar, na verdade sinto que  amo mais do que nunca. O casamento e os filhos ensinaram-me o conceito do amor profundo e a minha vida tem um propósito.
O que perdi foi o brilho e o deslumbre pelo mundo, pelas brincadeiras, por fazer coisas novas. Perdi a magia da infância.
Alguns dos meus amigos podem pensar: "Até que enfim!"; Se calhar era suposto isto de me tornar adulto ter já acontecido há anos... Mas parece que só agora sinto isto. Será talvez o estágio para a meia idade?!
Por um lado a seriedade tem uma importância grande e que nos ajuda a proteger os que amamos. Por outro lado é um pouco triste a criança em nós morrer... È uma morte aos bocadinhos...
Isto ocorreu-me quando terminei o Ciclo Paper deste ano. Não houve magia durante o dia que costumava ser o mais maravilhoso do ano para mim. Não houve magia na entrega dos prémios. Na realidade até me senti desconfortável nesse fim de semana, como se houvessem olhos que me acusassem de não fazer o que devia... Como se tudo o que fiz não fosse suficiente... E senti-me angustiado quando no passado me sentia feliz.
Talvez seja apenas a repetição do mesmo, talvez a repetição tire toda a côr aos acontecimentos por tanto os experimentarmos... Talvez se parasse de fazer o mesmo, ano após ano e fizesse algo novo a magia voltasse. Sei lá, organizar um geo-Paper, um face-Paper, ou algo completamente diferente como aprender a andar de patins em linha...
Ou se calhar, independentemente do que faça, nada mais mude. Talvez seja esta a fase da vida em que entro e da qual não mais saia. A fase da idade média, sem brilho, sem côr, em paz, mas sem júbilo.
Talvez seja tempo para dar lugar aos jovens e começar a aprender a fazer coisas de velhos. O que fiz já deixou algumas marcas e gostava de deixar uma herança, mas isto da meia idade é uma treta, pois é muito cedo até para deixarmos uma herança.
Que raio de merda. Sou novo demais para ser velho, mas velho demais para ser novo!

sexta-feira, agosto 28, 2015

Ipsum Factus



Hoje já contei este episódio 3 vezes e de todas as vezes as pessoas se riram, se de mim ou comigo, não sei, mas achei que era suficientemente divertido para partilhar e distribuir mais algum riso. Ainda que uma regra do humor parece ser rirmo-nos da desgraça alheia, ainda que a desgraça só seja alheia para vós, é sobre mim e não é um grande desgraça. Mas eis o que aconteceu, como aconteceu:
Estas últimas noites tenho andado bastante ocupado com a organização do Ciclo Paper, evento que tenho que organizar à noite, pois durante o dia tenho que trabalhar. As tarefas do Ciclo paper vão desde contactar pessoas, a pintar materiais, a experimentar jogos.
Ontem à noite estava a enviar SMS's aos colaboradores, e como aos nabos tudo acontece, o telemóvel bloqueou-me a enviar um SMS. Disparatei, queixei-me, carreguei nos botões os seis segundos da praxe e como ele não reagia, lá lhe tirei a bateria e reiniciei-o à bruta. Mandei os  SMS´s que tinha que ser e abandonei o telemóvel na mesa de trabalho, pois fui convidado para experimentar uma prova espectacular que os meus colegas tinham estado a montar. Quando nos divertimos as horas correm e quando dei por ela tinha colegas da organização a dizer que tinham que se ir embora que já passava da meia noite. Tentei-me apressar e também rumei a casa.
Chegado a casa, tarde, tenho fome, há que fazer uma sandes, deixa ver o que há, queijo e misturo com molho de camarão, maravilhoso.... Só é pena que ainda tenho fome.... Deixa ver mais uma bananinha. Que bom! E para terminar antes de ir para a cama só um iogurte e já agora uma gelatina que não engorda... Olha ali uma bolachinha fora da caixa, molinha, como eu gosto... Estou satisfeito, horas de ir para a cama. Deixa ver o que está a dar na televisão. Sento-me no sofá... Que fixe está a começar um episódio do Mentalista. è rapidinho só demora 45 minutos... Acho eu...
Pronto acabou o Mentalista, parece que vai ter continuação, mas tenho mesmo que me ir deitar. Tão grogue que estou que vou aos tropeções para a cama... Tiro a roupa, atiro-a para o chão, pouso o telemóvel na mesinha de cabeçeira e toca a adormecer... Mas nunca mais adormeço... Na cama perdemos a noção do tempo e após o que pareceu uma eternidade no escuro, ouço o telemóvel a vibrar... Alguém a enviar-me um SMS a esta hora? Pego no aparelho, viro o ecrã para a minha cara e a primeira coisa que vejo são as horas: 3:25 da manhã.... Quem ca... é que me manda um SMS ás 3:25 da manhã?!  Tenho que dormir!
Convém dizer que o meu despertador para o trabalho é o próprio telemóvel, tenho-o programado para as 7 menos 10m que me dá tempo mais que suficiente para chegar ao trabalho cujo horário começa às 8:00. E mesmo quando me atraso um pouco, como só demoro 5 minutos a fazer o trajecto casa-trabalho, consigo estar lá sem grandes atrasos. Mas nesta fase já só tinha um pouco mais de 3 horas para dormir...
Finalmente adormeço, mas o sono tem também aquela propriedade do tempo passar instantaneamente e mal adormeço, ainda no escuro lá está o telemóvel a berrar, o som do despertador chama-se Einsteiniano, mas deve ser o som que o Einstein fazia de manhã quando acordava mal disposto, porque o berreiro tira-nos mesmo da cama. Eu atrapalhado salto com o corpo para cima, sem saber muito bem o que precisava, apenas que tinha que ir... Ao que a Mafalda que vai trabalhar mais cedo 1 hora e ainda ao meu lado me diz: "É muito cedo, falta uma hora..." E eu penso para mim: Rais'parta o telemóvel que voltou a ficar no fuso horário de Espanha e está a despertar 1 hora mais cedo, mas o que digo para a Mafalda é: Que bom, posso dormir mais... E deito-me...
Entretanto acordo com um beijo de despedida da Mafalda que está de saida e a partir daqui tenho que me manter atento às horas pois após ela sair eu tenho que me preparar passado pouco tempo... Por isso vou estando de olho no telemóvel e quando me apercebo que ele já marca 8:20 (o desgraçado está na hora de Espanha e por isso são 7:20) há que despachar, casa de banho, lavar-me, barbear-me, vestir-me, corro muito e verifico que são 7:45... Apertado mas já estou pronto e só levo 5 minutos a chegar ao trabalho...
Vou para a carrinha, ponho-a a trabalhar e arranco. Mal entro  na estrada noto logo que ainda é Agosto, não há ninguém nas estradas. Enfim as minhas férias já acabaram há uma semana... Vou para a autoestrada, na qual só tenho que fazer 2 quilómetros e olho para o relógio da carrinha que neste momento me mostram ser: 7.17? 7:17? Mas que car...? Afinal o telemóvel  não estava na hora de Espanha, estava mesmo desacertado e mais de uma hora... Nisto é que começo a reflectir, e vejo que ando a correr para não chegar atrasado, quando a primeira vez que ele tocou deviam ser 5 da manhã... Rais'parta a sorte... Bem pelo menos chego cedo. Estaciono na empresa, parque vazio, óbvio e bem-me à cabeça que se calhar quando abandonei o telemóvel ontem à noite alguém me decidiu pregar uma partida e decidiu adiantar-me a hora... Quem teria sido o tratante? Vamos a um cafézinho... Máquina do café, 30 cêntimos, sai o café e enquanto o saboreio calmamente, ponho-me a olhar para o visor do telemóvel e constato que ele assinala a data 1 de Janeiro de 2009... Fds... Fui eu que me atraiçoei a mim próprio quando lhe tirei a bateria e ele passou imediatamente das 22:20 de Agosto de 2015 para as 00:00 do dia 1 de Janeiro de 2009...
Sete e um quarto da manhã e eu na empresa para começar a trabalhar às oito... Pelo menos tenho tempo.

quarta-feira, novembro 05, 2014

A queda leva-nos mais longe

Saí do trabalho na minha rotina, caminhando para o carro, e passou-me pela cabeça a análise ao simples mecanismo que me fazia deslocar, o andar. Andar é basicamente levantar um pé movendo-o pelo ar para a frente e em seguida debruçamos o peso do nosso corpo, forçando uma queda, que é apoiada pelo pé levantado e que nos ampara. Reerguendo-nos sobre ele deslocamo-nos a distância de um passo para a frente...
Não pude deixar de pensar em alguns dos paralelismos com a vida. Deixamo-nos cair para chegar mais longe. Usamos a energia de algo que nos derruba para nos erguermos mais á frente. Aproveitamos aquilo que está contra nós como fonte de energia propulsora.
No entanto esta aprendizagem, ou este uso da queda, que a maior parte de nós faz automaticamente, sem sequer pensar nisso, é algo que passa por um processo doloroso de aprendizagem... Apenas os nossos pais se lembrarão dessa fase da nossa vida, em que nos erguemos pelas primeiras vezes e tentamos dar os primeiros passos enquanto inicialmente apenas tombamos para o chão. Aprendemos que cair pode ser doloroso. Temos que aprender a medir a queda, a colocar o pé à nossa frente em amparo, a usarmos a energia que nos puxa para baixo para seguirmos em frente. E quando vencemos essa dificuldade, aprendemos o equilibrio, e começamos a usar a queda em nosso favor, o nosso mundo cresce, nós crescemos e podemos chegar mais longe-
Como no caminhar, a nossa vida é feita de caminhos, de trajectos em que temos que confiar e nos empurrar para a frente, em que arriscamos sem saber se o solo na nossa frente será firme e nos amparará... Tantas vezes não é. Tantas vezes somos nós que arriscamos demais, que desconhecemos o limite da passada, e o nosso pé não chega para nos amparar. Mas aprendemos. Tombamos e ficamos com dores, no coração e na alma, parece que queremos desistir e encostar-nos, deixar de tentar, mas se o fizermos nunca aprendemos e nunca avançamos.
A vida é uma viagem e qualquer viagem começa com um passo. Um passo é uma queda e até ao fim da viagem devemos caminhar, aprender com as quedas e seguir em frente.


sexta-feira, julho 11, 2014

37 anos...

Tenho 37 anos e não tenho grandes metas a curto prazo, mas ainda tenho tanto para fazer. tenho uma vida repleta, tenho feito imenso, aprendido imenso, tenho muitas histórias para contar, muitas pessoas que conheci, que amei, que ainda amo, tento não chorar, mas é dificil sempre sorrir, tenho imenso para dar, mas também tenho uma carência enorme... Sou tudo e nada sou.
Sou honesto, entregado, amigo, carinhoso... filósofo, pragmático... humano e transcendente... transcendo-me a mim e vivo para além... e no entanto estou sempre com os pés na terra...
tanta dualidade e tão pouca pessoa...
Adoro escrever, mas amo ainda mais o toque humano... porque as palavras são apenas uma expressão da realidade, o toque é a realidade...
Tão pouco tempo e tanto que fazer...

domingo, março 23, 2014

Não pensar é um pecado... E nunca pecarás por pensamentos...

Pensar é o primeiro passo para o futuro. 

O nosso pensamento é um laboratório. Pensar, imaginar, nunca será pecado. Não pensar é que é um pecado. Na nossa mente somos livres de criar, simular, imaginar, o que ainda não existe. 

Nem tudo o que pensamos pode ser passado cá para fora. Ora porque fere os direitos dos outros, ora porque não é uma boa ideia, ora porque não é exequivel neste tempo e nestas condições. Mas pensar não fere ninguém, não representa uma má conduta, não gasta recursos com o que não pode ser feito. Pensar é apenas uma ferramenta da inteligência.

Quem nos quer negar o pensamento, assustando-nos com o pecado ou com outros castigos, apenas quer controlar o estado das coisas, por mais errado que esteja, apenas nos quer impedir de imaginar um mundo melhor em que o poder não esteja onde está, tantas vezes erradamente distribuido.

Pensar é o laboratório que está ao alcance de todo o ser humano. Permite fazer experiências em todas as ciências e até nas que não são ciências. Podemos imaginar melhores soluções para a politica, para a matemática, para a economia, para a energia, para a poesia, para a medicina, para a pintura, para tudo o que de bom o ser humano sabe fazer.

"...não pecarás por pensamentos..." que cinta à melhoria da condição humana esta expressão representa. E perpetua-se, criada por algum monstro do passado, e que a trouxe até aos nossos dias, repetida por criancinhas que a aprendem antes de saber o que as palavras podem querer dizer. 

Foi a pensar que se descobriu curas, foi a pensar que se levou o Homem à lua, foi a pensar que se inventaram navios, escreveram livros, criaram-se obras de arte, mapeou-se a Terra, mapearam-se as estrelas, criaram-se jogos, se apaixonaram pessoas e fizeram planos os amados. Pensar é a ferramenta mais poderosa de que dispomos. Não a aproveitar, vedando-nos caminhos da imaginação seria um pecado, se realmente o pecado fosse algo que existisse.

Não existe o pecado, mas existe o crime, e podem dizer que pensar pode trazer crimes. Sim, pensar também trouxe guerras, também trouxe bombas, também trouxe racismos. Pensar pode trazer de tudo. Mas não é no pensamento que está o crime. O crime em todas as coisas más está nas acções. Nada disto teria sido mau se tivesse ficado pelos pensamentos e nunca tivesse passado às acções.

Mas se o pensamento é um laboratório e nos laboratórios se faz experiências, se segue um método, então qualquer pensamento que resultasse numa teoria pior, seria descartado. Outras ferramentas teriam que ser criadas. Mas algumas já existem. A observação que tanto está aliada ao pensamento e ao método, deve ser praticada pelo que pensa, como pelos que velam. Pelos que criam, como pelos que protegem. E todos devem pensar. Porque pensar é um mecanismo de evolução, de melhoria. 

Pensar é o maior dom que o ser humano recebeu. É o que nos distingue do resto dos seres do planeta. Não se deve negar o dom a quem pode fazer coisas tão boas com ele. 


terça-feira, agosto 20, 2013

O que é o teatro para mim...

A primeira coisa que me ocorre é que o teatro é arte. Mas o teatro é muito mais; o teatro é o mundo num palco, é um sentimento verdadeiro que passa por fingido, é um desabafo sabendo que nos ouvem, é poder chorar, rir e fazer coisas humanas que preciso fazer e não consigo, é ter calor de uma família maior, são os amigos que temos no palco e fazemos fora dele, é a repetição ensaiada da vida até que o plano dê certo. Tudo isto e muito mais é o teatro.
Mas para mim o teatro é ainda divã de doutor, onde me deito, relaxo e me liberto. Onde colocando a máscara sou autêntico. No teatro eu posso ser louco, como sou, e encontro a sanidade. No teatro eu confesso verdades profundas do meu ser, expurgo-as cá para fora, livro-me do mal que me corroí e fico sem mácula.
O teatro é também um tubo de ensaio, um laboratório e universidade. Onde o inventor e cientista em mim pode experimentar. Crio a acção e observo a reacção. Posso fazer experiências sociais. Posso testar as minhas capacidades e as do mundo. Questiono o meu igual, registo a resposta e aprendo sobre mim. A experiência teatral vive da mistura do diálogo com a acção, da situação com a emoção, num cenário controlado debaixo da iluminação que cada acontecimento da vida merece. O teatro levanta a hipótese do que o mundo é, gera a teoria e prova com certeza a tese.
Tudo isto é teatro para mim. Mas o teatro não é só para mim. O teatro é para o meu igual, que ora usa o titulo de actor, ora de técnico, ora de público. O teatro é para todos estes. E todos podem ser estes.
Para o espectador o teatro permite-lhe assistir ao sonho estando acordado. O sonho que foi escrito, encenado e representado por outro. Para ele o teatro faz-lo sentir a emoção, a alegria e o riso, o choro e a revolta, dá-lhe a oportunidade de criticar o bem e o mal, de o observar de fora, ensina-lhe a moral e o escândalo, dá-lhe a escolha de qual quer ter e ser. O teatro demonstra a virtude e o defeito, apresenta o demónio e o anjo, o efeito e a consequência.
O teatro é ainda uma família. Uma família global tão grande que nem é possível conhecer, mas também uma irmandade local com quem vivo aventuras, verdadeiras no palco e verdadeiras cá fora. Com quem bebo, com quem debato, com quem ensino, com quem aprendo. São irmãos com quem partilho quartos, sofás e refeições... São as pessoas que me acompanham a sítios novos, que se se abrigam comigo da chuva e partilham o sol.
Tudo isto é teatro, mas teatro é ainda mais.

quarta-feira, maio 08, 2013

Dobra-te, humilha-te e sofre para provares que me amas!

Tenho um amigo que está envolvido numa relação doentia. O desgraçado ama uma mulher que não o merece. O problema é que ele não consegue ver isso e ainda pior é que em todo o circulo de amigos dele, eu pareço ser o único a reconhecer a insanidade da relação. Todos os outros o incentivam, declaram que ele encontrou a mulher perfeita e que vale tudo para fazer aquele amor continuar. Mesmo que isso implique humilhar-se, dobrar-se e sofrer por ela.

A mulher é uma verdadeira sádica. Quanto mais ele se humilha mais ela exige dele, inventando novas formas de o torturar das formas mais distorcidas e rebuscadas. Ele ajoelha-se, ele arrasta-se para ela, ele chora, mas ela sempre com a mesma atitude de que ele tem que lhe provar o amor sofrendo... Acreditem que já o vi de joelhos esfolados à frente dela, a penitenciar-se. Mas valeu-lhe de alguma coisa? Não teve mais nenhuma graça dela por causa disso, garanto-vos. Apenas aumentou o nível de escravidão e subserviência...
E quando começou a dieta forçada? Não compreendo muito bem como ela o conseguiu levar aquilo , mas como seria possível alguém como eu perceber uma mente tortuosa? O facto é que certo dia, ele começou a notar-se mais magro, questionamos-lo, porque não era uma magreza saudável, ao invés de estar elegante e bonito, ele estava ossudo, com a pele cinzenta e os olhos encovados, e ele confessou-nos que ela lhe pediu para fazer uma dieta à base de raízes e saladas de azedas... Horrível, intragável, nem é comida para seres humanos... O facto é que ela lhe justifica sempre que os sacrifícios que ele faz são pelo amor dela e que beneficiam a todos, mas no fundo são apenas mais uma forma de explorar novos níveis de dor e sofrimento.
Uma coisa habitual que ela lhe faz todos os anos por altura das férias, são as caminhadas. Dito isto parece saudável, mas eu mostro já onde isto se distorce. O desgraçado aproveita sempre para tirar férias entre Maio e Outubro e ainda antes do meio do mês, lá está ele nas caminhadas que mais parecem trabalhos forçados. Penso que deve ser uma forma para não o aturar em casa, pois ela leva-o a fazer caminhadas que demoram dias, ao longo de centenas de quilómetros, por estradas perigosíssimas. Ela dá-lhe um colete refletor (como se isso lhe valesse de muito nas estradas com os carros a cruzarem-se com ele a 90Km/h) e manda-o caminhar. E lá vai o desgraçado de manhã à noite a romper solas, cheio de bolhas e a mancar, para longe dela, mas achando que está a caminhar para ela...

A minha opinião e penso a de qualquer pessoa razoável, é que se ela gostasse mesmo dele lhe dava paz, carinho verdadeiro e não o maltrataria. Claro que se ele ouvir isto, começa a disparatar defendendo-a... Síndrome de Estocolmo?! Não consigo pensar noutra coisa para explicar este amor doentio...

Eu não sou dono da razão, mas sou uma pessoa não dogmática e critica que sabe observar de uma forma isenta e verificar onde está o razoável e onde se entra no disparate. Esta adoração é um disparate. Alguém que nos ame não nos pede sacrifícios só como prova de amor. Alguém que nos ame não nos quer ver sofrer e não o justifica com o argumento que o nosso sacrifício e dor pessoal é para o bem maior. Alguém que nos ame poupa-nos da dor, ajuda-nos, ensina-nos, exemplifica-nos valores de moral. Qual é a moral de tudo isto?

Apesar de todo o meu testemunho e factos que apresentei, tenho a certeza que não o consegui convencer e que no nosso grupo de amigos vou continuar a ser eu que consideram estar errado. Mas eu limitei-me a apresentar factos e tudo o que disse por mais surreal que possa parecer é verdadeiro.
Vá lá amigo, deixa a Maria de Fátima que ela não te merece.